Não consigo precisar exatamente quando foi que nasci. Sei que desde pequeno fui obscuro, e sempre gostei disso.
Era uma época diferente: o que era tendência me desconectava da realidade que eu necessitava e o que era novidade tornava-se excessivo e proibido, mas eu nunca liguei para os que os outros de mim falavam e a mim apontavam como ‘o caminho a seguir’.
Minha vontade eu ia lá e fazia!
Foda-se aquela fala perversa e conservadora que sempre acha que sabe tudo sobre todos e que escolheu para si o certo.
Eu só ia adiante, Like a Rolling Stone, sacas?
Com o tempo fui ficando mais áspero, calado, rouco e talvez louco.
Aquela velha história: sexo, drogas e rock n' roll nunca foi para crianças. Apertava um ali, dava uma banda...
Nunca fugia, nunca parava: só dava um tempo.
Apesar disso EU continuava vivo, me alimentando do que sempre destruiu os fracos: a derrota.
Nunca gostei de nada processado, de ração para rebanho. O negócio é beber da fonte! Ah Voodoo Chile, como tu foste importante pra mim, querida filha.
Fonte da subsistência da mente consciente: álcool diariamente me conservou. Trouxe amizades verdadeiras, embora não tantas quanto às novas tendências. Ao contrário deles as minhas amizades são minhas até hoje.
Nunca as abandonei e vice-versa. No máximo era um vômito aqui, outro ali e vamos pro próximo bar, só que isso é companheirismo, mesmo!
O real é ser verdadeiro com quem é contigo e com quem não é também!
Eles têm de aprender a ter vergonha de não possuírem uma identidade.
De não poder bater no peito e urrar: rock n’ roll, porra!
De não fazer headbang sem medo, mesmo tendo cabelos longos.
Rockeiro nato sempre fez e sempre faz headbang, mesmo careca.
É tudo atitude, cara!
O que você sabe sobre o Disko, hoje?
O Disko veio com tudo, me banalizaram, jogaram tomates, batidas eletrônicas e quiseram me comprar a todo custo. Doce ilusão! Tu te colocarias à venda por uns trocados revertidos em enormes cifras consumidas pelo consumo?
Mesmo assim ousaram tornar-me glam, bi, homo, vil e até quebraram meu primeiro vinil dos Stooges, o IV do Led, o Sticky Fingers, roubaram meu Dark Side, deram ao Sidney meu Sgt. Peppers corroído por traças da ganância das gravadoras.
Quando me enclausuraram, mais ou menos uns 30 anos atrás, perdi meu filho Machine Head, tomaram-me o Space Oddity, o Cosmo's Factory e meu querido Buffalo Spingfield.
Atearam fogo em toda minha discografia. Quiseram apagar minha história!
Demonstraram mais uma vez o quanto são comuns e insensatos. O que eu vivi ninguém tira de mim. Fogo nenhum me queima, só me aquece!
Reinventei-me grungeando aqui e ali. Eu nasci do blues, I GOT THE BLUES e a ginga toda! São lembranças memoráveis. O britpop queria brigar com o grunge. Pais não gostam quando filhos se desentendem.
A cada novo dia que nascia aquela luz ofuscante do sol queimava minha retina ressacada, eu nem dava bola porque o show não para jamais.
Agora me surge uma piazada colorida e chupando pirulitos, tentando a todo custo vincular-se a mim.
Que grande merda que quiseram fazer!
É como eu disse: quem tem identidade tem, quem não tem copia.
O problema dessa geração medíocre é que são tão incapazes ao ponto de nem uma cópia reproduzir, pois desconhecem o que PRETENDEM copiar.
Se conhecessem fariam parte, e não tentariam à custa de fragilidades abarcar o mundo.
Há mais de 30 tentam me matar, e a cada flechada que me corta e não mata, me inocula não veneno e sim a tenacidade de um velho calejado de vida pulsante.
Aqueles que a mim vem sabem que é possível ser ingênuo conhecendo a vida em sua plenitude.
A cada detalhe vivido podemos sorrir mesmo sabendo que a estrada é quase sempre sombria. Não por isso é menos interessante.
Eu e meus braços estamos sempre abertos aos poucos e bons.
Aos poucos e bons!
Porque eu posso ser muito rock, e muito mais roll!